Opinião
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Revolução em mulher

Por Professor Betinho
Expresso Periférico

Existe uma máxima popular que diz que a única certeza da vida é a morte. O destino é incerto, não controlamos quase nada e caminhamos dia a dia para o fim, tentando fugir da morte sem saber exatamente onde ela nos encontrará.

Essa certeza da finitude, ante de tantas incertezas que nos acompanham, faz com que cada momento deva ser vivido de forma especial e único, pois, no fundo, é exatamente isso.

Outra questão importante é refletir sobre quem escolhemos para ser nossos ídolos, nossos heróis. Porque, na verdade, essa escolha também determinará quem somos enquanto aqui estamos. Os últimos anos têm sido especialmente difíceis, com muitas perdas, muita dor. Foram três anos de pandemia de Covid-19. Muita gente boa, próxima ou não, se foi. Nesse período, perdi também minha maior referência, minha querida mãezinha, numa passagem bastante traumática para mim, mesmo não tendo sido Covid a causa de sua morte.

Escrevi e postei em redes sociais sobre esse momento e decidi não postar mais sobre mortes de personalidades que estavam partindo ou mesmo amigos próximos. Não queria que minhas redes virassem um obituário.

Mas a cada perda, as reflexões sobre a dama do tempo, aquela que encontra a todos sem exceção para cumprir sua missão, se renovam. Vimos a perda de pessoas ilustres como Elza Soares, Rolando Boldrin, Gal Costa, Jô Soares, Paulo Gustavo, Roberto Dinamite, Erasmo Carlos, Glória Maria, Palmirinha etc. Até as realezas Rainha Elizabeth lI e Rei Pelé se foram e, agora, Rita Lee, também considerada rainha por muitos. A cada passagem algumas lágrimas e muitas reflexões, muito mergulho interior Sim, além dos nomes famosos citados, há os anônimos, nunca menos importantes para seus amigos e familiares.
Mas o que eu gostaria de destacar é que há uma geração que está partindo. Geração que viveu em tempos de ditadura civil-militar, muitos que sofreram censura, perseguição, prisão e outras atrocidades típicos de períodos autoritários. Alguns a enfrentaram, outros combateram de forma indireta esses dias sombrios. Depois, viram a redemocratização do país e viveram a esperança de dias melhores. E voltaram a ver dias difíceis nos últimos tempos.

A questão é saber se a morte é realmente o fim. Não questiono as visões religiosas, as filosofias e crenças de cada um. Se acreditam em céu ou inferno, reencarnação ou algo que o valha. Penso em legado. Rita Lee morreu dia 08/05/2023. Seu corpo, cremado. Mas, e sua obra? Morre quem fez “um monte de gente feliz” durante tanto tempo? E por quanto tempo mais fará? Será possível ser imortal em sua obra? Quem lerá sua biografia e autobiografia daqui a 30, 50, 100, 1000 anos? Imagino que Pelé será eterno enquanto existir futebol.

A eternidade de famosos ou anônimos e de povos inteiros se dá enquanto sua história continua relevante e sendo contada. Muitos povos foram dizimados, silenciados e, portanto, tendem a ser esquecidos. Outros tantos resistem contando oralmente sua história. Quem conseguiu escrever e colocá-la em livros, leva vantagem na possibilidade de permanência na memória. Mas, e amanhã, se queimarem esses livros? A história permanecerá? São perguntas sem respostas definitivas ou satisfatórias.

Só sei que agora, hoje, nesse momento, Rita Lee faz muita falta. Com sua morte, passamos a prestar mais atenção ao seu talento, às suas letras e atitudes transgressoras, às suas causas, à força transformadora e libertária que ela representou e continuará representando, não se sabe até quando. Ela será eterna enquanto durar seu legado porque a vida é finita, mas a obra pode ser imortal. E Rita Lee é uma eterna revolução em si.

Ilustração: Bruno O.

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